Em suas descobertas e ensinamentos, o príncipe Sidarta Gautama (tido pelo budismo como o Supremo Buda) sempre se referia ao “caminho do meio” como um princípio orientador – das relações interpessoais, intrapessoais ou com o mundo e a natureza.

Embora não tenha nenhuma ligação com preceitos religiosos, é a busca por esse ponto de equilíbrio que pauta os fundamentos e orientações da chamada Disciplina Positiva, conceito criado pela médica norte-americana Jane Nelsen, no anos de 1980, com base no trabalho do psicólogo austríaco Alfred Adler (1870-1937) e seu colega de pesquisas (e conterrâneo), o psiquiatra e educado Rudolf Dreikurs (1897-1972), que encamparam estudos juntos nessa área na década de 1920.

Num breve resumo, seria como saber dosar firmeza e carinho na complexa arte da educação – seja dos filhos ou dos alunos por parte dos professores. Como exercer a autoridade sem ceder ao autoritarismo? Como ensinar o valor da liberdade sem cair na armadilha da permissividade?

Com o objetivo de encorajar nossos filhos e alunos a se tornarem resilientes e responsáveis – e fomentar neles a noção de respeito –, o conceito (que também é um programa de educação) tem como base cinco critérios que funcionam como ponto de partida para a realização desse trabalho. São eles:

Conexão – ajudar a criança a se sentir parte importante da família e da escola;

Respeito mútuo – encoraja-las a ter firmeza e gentileza ao mesmo tempo;

Longo prazo – considerar que o que a criança está pensando, sentindo, aprendendo e decidindo sobre si mesma e sobre seu meio social, instrumentando-a para desafios futuros;

Habilidades sociais e de vida – ensinar respeito e cuidado com os outros, tornado os pequenos capazes de resolver problemas sozinhos e coletivamente;

Descobrir capacidades – encorajar nossos filhos e alunos a usarem a autonomia de forma construtiva.

Os fundamentos

Baseada na comunicação, no amor e na empatia, a Disciplina Positiva propõe uma educação com respeito e firmeza. Em suas pesquisas sobre o tema, a Dra. Jane Nelsen chegou a cinco fundamentos desse conceito que podem ser aplicados na educação de crianças e adolescentes.

O primeiro aponta o “caminho do meio” entre a firmeza e a amabilidade. Ao sermos amáveis e firmes ao mesmo tempo, salvaguardamos tanto o bem-estar das crianças quanto o nosso próprio. É o princípio que faz referência a uma educação baseada no respeito mútuo.

Incluir nossos filhos em nossas decisões diárias é o segundo ensinamento. Com isso, ajudamos filhos e alunos a se sentirem importantes nos meios sociais em que convivem hoje e nos quais enfrentarão amanhã. Para conseguir que sintam esse pertencimento, a Dra. Jane ensina a escutá-los, a levá-los a sério, e a convidá-los para cooperar conosco.

A Disciplina Positiva também busca evitar pragmatismos. Não estamos programando máquinas; por isso, é preciso deixar o tempo agir. Esse modelo de educação pensa sempre a vida a longo prazo. Ao ter em conta o que nossos filhos estão pensando, podemos guiá-los para buscar saídas que ajudem na resolução de conflitos e problemas. Aqui, a empatia também entre em cena: é preciso que os adultos responsáveis se coloquem no lugar das crianças e dos jovens a todo momento.

Ao educar pautado por ações e sentimentos positivos, oferecemos a nossos filhos a oportunidade de crescer com habilidades de vida necessárias para prosperar. É sobre isso que trata o quarto fundamento: sempre mostrar-lhes qualidades como responsabilidade, autocontrole, disciplina, empatia e respeito.

Por fim, está o desenvolvimento das capacidades próprias de cada pequeno ou jovem. Ao convidar nossos filhos a descobrir suas habilidades, possibilitamos que aprendam a confiar neles mesmos. Como resultado, ajudamos a formar sujeitos autônomos e capazes de aprender de seus próprios erros. E sem julgamentos ou castigos. Ainda que se equivoquem, é a autoconfiança que poderá levar à melhor forma de corrigir falhas.

A teoria na prática

Confira dez passos que podem incluir a Disciplina Positiva na forma como educamos nossos filhos e alunos:

Coloque-se no lugar da criança – Busque compreender as razões de um conduta considerada negativa. Dessa forma, se tornam mais harmoniosas (e menos autoritárias) as tentativas de ensinar e ajudar.

Pratique uma comunicação positiva – Ajude a pensar, a refletir e a tomar decisões sobre determinado comportamento. Diante de um conflito de valores, por exemplo, busque conversar com a criança. E dê bons exemplos – eles são ótimos “professores”.

Seja o que você quer passar – E por falar em exemplos, atue da forma que você gostaria que seu filho seguisse. Sabemos que as crianças imitam os adultos ao seu redor.

Mostre comprometimento – Estabeleça os objetivos de conduta que quiser conseguir. A coerência é fundamental no processo de educação. Por isso, dizer uma coisa e não cumpri-la pode confundir a criança, o que cria um obstáculo para que ela se comporte como o esperado.

Seja firme – É papel de adultos responsáveis por crianças e jovens (sejam pais, cuidadores ou professores) ajuda-los a discernir entre o certo e o errado. Ou seja, segue de suma importância estabelecer limites e normas. O que muda é a maneira de impor essas barreiras, que deve ser sempre com amabilidade e respeito. Para a Disciplina Positiva, fugir de castigos e ameaças (ou mesmo palmadas) não significa partir para a permissividade. Ao sermos firmes em nossas decisões, sinalizamos aos nossos filhos o que esperamos que eles cumpram.

Comunique-se! – Dialogue com a criança, permitindo-lhe explorar as consequências de suas decisões. E use o próprio erro como fonte de aprendizagem.

Soluções em vez de problemas – Nós adultos sabemos o quanto é frustrante quando nos trazem um problema sem perspectiva de soluções. Crianças e jovens sentem o mesmo – ainda que expressem de outra forma. Pensem juntos formas de solucionar conflitos. Levar a criança a refletir e encontrar soluções permitirá que seja uma criança autônoma e responsável.

Desenvolva a autonomia – É parte do trabalho ajudar a criar um indivíduo que saiba desembaraçar seus nós. Convide a criança a participar de atividades como recolher os brinquedos, por exemplo. Dessa forma, além de se sentir parte de algo positivo, o pequeno também aprenderá a ser independente.

Não rotule – O mundo em que vivemos hoje tem nos mostrado o quanto julgamentos e definições limitantes podem gerar conflitos. Por isso, critique a ação e não o indivíduo. Essa é uma forma de cuidar da autoestima do jovem, evitando que ele se defina pelos seus erros.

Respeito sempre – Respeitar individualidades e “permitir tudo” são coisas diferentes. Se tiver que repreender seu filho, faça isso. Mas sempre considerando sua personalidade, suas limitações e qualidades, e o principal: sem transmitir medos.

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